SIGA-DF | Agente comunitário de saúde relata condições de trabalho em unidade básica durante pandemia. É preciso organizar a luta da categoria.

Por Comitê do Gama do SIGA-DF

enfermagem
Protesto de profissionais da enfermagem em Brasília no 1º de Maio denunciou falta de EPIs, afrouxamento do isolamento e prestou homenagem aos colegas de trabalho vítima de Covid-19 no Brasil. O protesto, mesmo sendo pacífico, sofreu agressões de militantes bolsonaristas.

 

>>> Leia a entrevista em PDF.

O Sindicato Geral Autônomo do DF e Entorno (SIGA) entrevistou Lucas*, um trabalhador lotado em uma base de entrada do SUS, uma Unidade Básica de Saúde, que relatou as condições de trabalho na atenção primária durante a pandemia de COVID-19. O SUS é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, porém opera com forte precariedade e ameaça dal, e privatização.

Atualização: Enquanto esta entrevista era publicada, fomos informados que Lucas entrou em quarentena por estar com sintomas de Covid-19 e aguarda resultado do exame. Prestamos solidariedade a Lucas e todos profissionais de saúde, com sincero votos de melhora. É inadimissível que os profissionais da saúde (agentes comunitários, auxiliares, enfermeiros e médicos) estejam na linha de combate a pandemia sob alto risco de contaminação e com proteção tão precárias! Reforçamos a campanha nacional da FOB: #ExijaTeuEPI – Se teu trabalho é essencial, tua segurança também! Compartilhe esta campanha!

SIGA – Quais eram as condições de trabalho das Equipes de Saúde da Família e a infraestrutura e insumos das Unidades Básicas de Saúde na sua região de atendimento antes da pandemia?

Lucas – Os recursos na Unidade Básica de Saúde (UBS) sempre foram escassos, a improvisação é uma rotina em quase 15 anos de atividade como profissional de saúde. Essa falta vai desde objetos simples da rotina da UBS como: aparelho de verificação de Pressão Arterial, termômetros, impressos (receituário, solicitação de exames), até a infraestrutura, com o local de trabalho muito quente e barulhento, falta de privacidade durante as consultas, poucos computadores e estes desatualizados além da internet lenta, o que piora a qualidade de atendimento ao usuário.

SIGA – O Ministério estimou que 90% dos casos leves de Covid-19 podem ser atendidos nos postos de saúde e orientou que pacientes procurem os postos quando apresentarem sintomas iniciais. Existe capacidade de atendimento hoje nos postos de saúde para essa nova demanda?

Lucas – Sim. Na UBS onde trabalho, com o início da Quarentena, toda a rotina foi ajustada para adequação à realidade. Os trabalhadores que eram separados em Equipes de Saúde da Família hoje se revezam no acolhimento, triagem e consulta dos pacientes com queixas agudas incluindo os sintomáticos da nova COVID19. Os pacientes são abordados ainda do lado de fora da UBS e encaminhado, segundo a necessidade e queixa, para o setor específico. Acredito que essa organização foi bem aceita pelos servidores e usuários.

SIGA – E como estão sendo feitos os diagnósticos, a atenção e os cuidados aos pacientes com Covid-19 nos postos de saúde do DF?

Lucas – O GDF possui diversas realidades. Alguns locais oferecem o teste rápido e outros, como o meu local de trabalho, encaminha o paciente para o Hospital de referência caso o profissional médico, após o exame clínico, achar necessário.

SIGA – A pandemia de Covid-19 coincide com o surto de dengue, zika, chikungunya e influenza, aumentando a pressão no sistema de saúde. Houve reforço com novos profissionais de saúde, insumos e equipamentos de proteção individual (como máscara, avental, óculos, luvas)?

Lucas – Enfrentamos um grande surto de Dengue, o que de fato vem pressionando os trabalhadores por mais atendimentos. O GDF contratou alguns profissionais (médicos, enfermeiros e agentes de saúde), mas de forma precária, sem concurso. A UBS vem oferecendo máscaras (duas por dia), gorro e avental diariamente, mas óculos e máscaras de proteção facial os próprios servidores estão comprando ou recebendo de doação, que não atende todos os trabalhadores.

 


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SIGA – O Programa Saúde na Hora, do Ministério da Saúde, ampliou o repasse mensal de verba aos postos de saúde e obteve baixa adesão. A condição para o repasse era estender o horário de funcionamento para a população por, pelo menos, mais 12 h semanais. Há condições de ampliar a jornada de trabalho? É justo condicionar mais verba a esta ampliação?

Lucas – Nossa UBS é uma das poucas no DF que fazem o horário noturno (das 7 às 22 horas). Porém, é importante esclarecer que não houve um ganho real de carga horaria, mas um deslocamento de escala. A Equipe que estiver escalada no terceiro turno (noite) terá alguns de seus servidores de folga em algum turno anterior (manhã ou noite), assim apenas uma parcela da equipe ficará no atendimento em cada turno. Há uma notória perda de produtividade, mas uma certa manobra do GDF para afirmar sobre a extensão do horário de atendimento. Para piorar os servidores passam a não ter 12 horas de descanso entre um dia de trabalho e outro, visto que, nessas ocasiões, saímos do trabalho as 22 horas de um dia e temos que voltar ao trabalho as 7 horas do dia seguinte. Os investimentos são sempre bem vindos na Saúde Púbica e sempre é muito justo, mas não vemos a aplicabilidade real desses recursos na Atenção Primária.

SIGA – A pandemia tem trazido estresse e ansiedade para toda população. Como os profissionais da saúde têm lidado emocionalmente com esse aumento nos riscos associados a sua profissão e ainda com a possibilidade de contaminação de familiares?

Lucas – Nossa geração nunca enfrentou algo parecido. Além da crise sanitária, vivemos uma crise econômica profunda, uma total desestabilização das instituições e um flerte cotidiano com o Fascismo. Discursos contraditórios em relação às medidas de isolamento social entre os chefes do Poder Executivo (Distrital e Federal), as constantes ameaças no desabastecimento dos EPIs mínimos, no caso específico do ACS [Agente Comunitário de Saúde] o corte da indenização de Insalubridade, e principalmente, uma falta de perspectiva do futuro certamente geram uma onda de estresse e ansiedade em todos os servidores. Tenho evitado contato com familiares, especialmente minha mãe que é idosa e paciente crônica. Realmente não é fácil.

SIGA – Como tem sido as atitudes da população atendida na sua região? Está bem orientada e aplica as prevenções comunitárias para não se contaminar ou propagar o novo coronavírus?

Lucas – Muitos pacientes têm tomado medidas preventivas, uso de máscaras, álcool em gel, evitado aglomeração e saídas desnecessárias. Contudo, uma grande parcela é resistente às medidas de segurança. Várias pessoas se sentem encorajadas pelas atitudes dos negacionistas, dos pseudocientistas e do Miliciano Presidente Messias. Durante o atendimento alguns relutam em não ouvir nossas orientações e nesses casos temos que ser mais enérgicos, o que gera ainda mais desgaste físico e emocional.

agressao
Hoje (15/05), segundo o COFEN, o número de profissionais da saúde mortos por Covid-19 no Brasil supera o dos EUA, além dos infectados e afastados. Entre os profissionais da saúde em Brasília (até 14/05), 349 (18,3% do total de casos) foram infectados e há 2 casos de morte por Covid-19. Na fotomontagem acima, apoiadores do governo federal insultam enfermeiras durante homenagem aos profissionais da saúde no 1º de Maio, Brasília.

SIGA – De acordo com o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, a quantidade de leitos e UTIs disponíveis nas redes pública e privada no DF é inverso à demanda: 69% da população depende de atendimento da rede pública que oferece apenas 16,6% das UTIs e leitos, enquanto 31% da população dispõe de suporte da rede privada que oferece 83,4% das UTIs e leitos. A maioria é mais pobre e tem menor cobertura. Você considera que essa má distribuição de leitos e UTIs influenciou a decisão do governador Ibaneis para flexibilizar o isolamento social?

Lucas – Sou bastante radical com relação a essa divisão de classes. Acredito que toda a flexibilização dos governadores e a insistente tentativa em acabar com o isolamento social por parte do Miliciano Presidente Messias decorrem dessa divisão. É o pobre que sempre fica mais exposto em ônibus super lotados e em contato direto com o público. É sempre a Classe Popular que sofre o Racismo Primordial da Classe Média que sai em carreatas em seus automóveis (às vezes, de luxo) exigindo que o proletário se arrisque e arrisque a vida de sua família por salário de miséria e humilhações.

SIGA – Em Brasília, houve forte mobilização de profissionais da saúde contra o modelo de Organizações Sociais (OS) ou Serviço Social Autônomo (SSA) instituído por Rollemberg ao Hospital de Base (2017) e expandido por Ibaneis à UPAs e Hospital Regional de Santa Maria (2019). De que modo essa privatização afeta a qualidade do serviço público e as condições de trabalho dos agentes de saúde?

Lucas – A Privatização da Saúde é a morte do Povo. Saúde não é mercadoria, vida não pode ser mensurada. Mas para a Elite e a Pequena Burguesia um posto de saúde é apenas mais um lugar de exploração do Capital. Áreas sensíveis como Saúde e Educação desempenham papéis importantíssimos para o desenvolvimento da nação, ao tratar a saúde pública como uma empresa, com o lucro sendo o único objetivo, a qualidade do serviço prestado e a saúde das pessoas fica em segundo plano. Essa transformação gera profissionais mal remunerados, insatisfeitos e vulneráveis as pressões dos patrões. As privatizações enfraquecem as lutas dos trabalhadores por melhores condições de trabalho que ficam cada vez mais precarizados.

 

O SIGA incentiva que os profissionais de saúde se organizem de forma autônoma dos gestores em suas unidades para denunciar publicamente as condições de trabalho e exigir seus direitos. Encaminhem suas denúncias, relatos, fotos e vídeos para: fob-df@protonmail.com. Contem com o SIGA! Só o povo salva o povo!

* Usamos um nome fictício para evitar represálias do governo ou gestores.

 


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FOB – Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil

Filie-se ao Sindicalismo Revolucionário!

 

SITE: www.lutafob.wordpress.com
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