CONFEDERAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO: a Internacional solidária

Fonte: www.cnt.es | Miguel Pérez/Redação. Madri | Extraído de CNT n° 420 | Traduzido por: FOB-Piauí | baixe em pdf aqui

POR QUÊ A CIT?

Há uma razão relevante para o por que da Confederação Internacional do Trabalho (CIT), que é impulsionada há alguns anos, em várias organizações anarcossindicalistas e sindicalistas revolucionárias de todo o mundo, para dotar a sua prática de um conteúdo que alimente dinâmicas socialmente transformadoras. Na CNT temos nos concentrado na prática sindical através das seções. Em outros lugares, essa mudança teve um caráter mais social. Por exemplo, a IWW dos Estados Unidos e Canadá e seu trabalho com pessoas presas ou sua contribuição muito importante para o movimento antifascista e contra Trump, através de seus Comitês de Defesa.

Mas para além da forma como cada organização se adapta à sua realidade específica, o que há é um esforço para serem agentes de uma mudança revolucionária sobre essa realidade e para contribuir para ela, em conjunto com outros atores, como não poderia ser de outra forma. De certa forma, é uma mudança cultural em nossas organizações. Podemos falar de uma confiança recuperada nas nossas propostas. Já não é algo retórico, mas sim buscam por formas de o pôr em prática, porque se acredita fundamentalmente na sua certeza e na sua conveniência. É por isso que passamos de um momento de definição negativa a um momento de afirmação. Sim, somos revolucionários. Sim, acreditamos que as nossas propostas são viáveis. Sim, vamos construir as ferramentas para levá-las à prática.

Para pertencer à CIT, um sindicato deve se definir como anarcossindicalista ou sindicalista revolucionário. Mas o importante é que devem ser organizações que buscam desenvolver ou propor uma alternativa revolucionária nos mundos do trabalho

ETAPAS PRELIMINARES

O processo de constituição da CIT parte do acordo do XI Congresso da CNT em Saragoça, em dezembro de 2015, de lançar um projeto de refundação da AIT. Convidamos todas as secções da AIT a participar neste processo e as mais importantes, em tamanho e relevância histórica, decidiram em suas respectivas eleições, ao longo de 2016, participar. Assim, FAU (Alemanha), USI (Itália) e FORA (Argentina) se juntaram ao projeto e nos acompanharam desde o início. Em termos gerais, estas secções representaram 80 a 90% dos membros da AIT.
Após os primeiros contatos, foi iniciado um processo que tinha duas vias. Uma interna, nas organizações participantes, para garantir o mais escrupuloso respeito à democracia interna em cada seção. E um externo, de contatos com organizações de outros países. Por exemplo, internamente, na CNT, entre o Congresso de 2015 e maio de 2018, o tema foi tratado em pelo menos três sessões plenárias (algumas delas em caráter de teses), sendo debatidas e votadas pelos sindicatos de Gráficas, Valladolid, Candás ou Compostela, entre outros. De fato, várias delas foram a base dos documentos aprovados no congresso de constituição da CIT, em Parma (Itália), em 2018.

Delegações da CNT, FAU, USI e FORA no congresso fundacional da CIT em 2018, em Parma (Itália)

Externamente, após contatos iniciais com as seções do AIT, uma primeira conferência internacional foi convocada em Barakaldo, em novembro de 2016, para apresentar o processo. A partir de então, várias outras reuniões preparatórias foram realizadas até o Congresso de Fundação da CIT em Parma, em 2018.

ORGANIZAÇÃO HORIZONTAL

Foram feitos todos os esforços para dotar a Internacional de mecanismos que garantam o respeito escrupuloso pela democracia interna, a tomada de decisões de baixo para cima, a autonomia das seções e sua diversidade. Entendemos que cada seção tem seus próprios tempos e mecanismos internos de tomada de decisão, e qualquer processo deve ser respeitoso com eles.
Sempre se procura que os acordos das seções sejam tomados com várias alternativas possíveis, para facilitar a adequação com os dos demais e para poder buscar soluções consensuais. Isto foi feito em praticamente todos os casos, incluindo o de Parma. Se, em qualquer caso, for necessária uma votação (apenas um ponto até à data, a questão do nome internacional), foi decidido um sistema de distribuição proporcional, tal como o utilizado pela CNT.
Além disso, existe um mecanismo de referendo interno, que permite que as decisões sejam tomadas a partir da base entre congressos, útil para chegar a acordos sobre pontos onde não existe um mandato anterior. Basicamente, as questões a serem deliberadas são remetidas às seções e elas têm um período para expressar sua opinião, seguindo seu processo interno. Com o que as seções decidem, busca-se um consenso, que é a decisão final.

Não somos internacionalistas porque somos, mas porque acreditamos que é uma ferramenta útil e necessária para a implantação e crescimento de anarcossindicatos e sindicatos revolucionários a nível global

Um dos temas mais recentes é o comitê de relações, formado por um membro de cada seção e apoiado em seu funcionamento pelos grupos de trabalho (de afiliados e afiliadas) necessários. Este comitê é a instância em que se busca consenso com base nas decisões tomadas nas seções e é, portanto, de onde emanam os acordos internacionais. Isto garante que a vontade de todas as seções (e de sua afiliação) seja sempre levada em conta nos acordos internacionais. Por outro lado, serve como uma ferramenta importante para incentivar a cooperação descentralizada e direta entre seções: se uma seção precisar do apoio de outra em um conflito ou se várias seções quiserem colaborar em um projeto comum, seus representantes no comitê de relações podem facilitar o contato direto e dar início a esse trabalho. Isso multiplica as oportunidades de colaboração descentralizada e direta.
Por último, o secretariado tem apenas um papel de representação e coordenação internacional. Os espaços de decisão são o plebiscito ou o comitê de relações. Outros elementos dos estatutos também seguem essa linha, a fim de ter uma organização menos rígida, mais democrática e horizontal.

IDENTIDADE ANARCOSSINDICAL

Para pertencer à CIT, um sindicato deve ser definido como anarcossindicalista ou sindicalista revolucionário. Mas o importante é que devem ser organizações que buscam desenvolver ou propor uma alternativa revolucionária nos mundos do trabalho. Embora este seja um passo necessário, não é o único, pois nossas organizações são apenas um dos muitos atores que devem contribuir para a construção deste movimento. Apesar de sua importância, a luta sindical é apenas um dos aspectos que essa transformação deve contemplar. É por isso que estamos mais do que abertos à colaboração com outras organizações que não estão incluídas na definição programática, mas com as quais compartilhamos objetivos globais.
Evidentemente, a nossa prática sindical não visa apenas a obtenção de melhores condições ou a prestação de serviços de assessoria sindical. O objetivo é conquistar contingentes de controle sobre o sistema produtivo e de consumo da sociedade capitalista, até que estejamos em condições de administrá-la. Embora as formas em que cada seção da internacional articula o projeto em seu campo sejam diferentes, o compromisso que nos une é o mesmo: fazer do anarco-sindicalismo e do sindicalismo revolucionário uma ferramenta poderosa nas mãos da classe trabalhadora para influenciar uma necessária e profunda transformação social.

A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL COMO PROJETO

Entendemos que o internacionalismo é algo que se constrói quando a solidariedade é exercida além fronteiras, como uma contribuição para o desenvolvimento do trabalho local das seções, para reforçá-lo e dotá-lo de novas ferramentas e perspectivas. Para que o internacionalismo exista, é necessário partir de seções locais fortes, baseadas em seu contexto sindical e social, e é de sua cooperação nas questões relevantes que ele surge.

a nossa prática sindical não visa apenas a obtenção de melhores condições ou a prestação de serviços de assessoria sindical. O objetivo é conquistar contingentes de controle sobre o sistema produtivo e de consumo da sociedade capitalista, até que estejamos em condições de administrá-la

A filosofia que anima o CIT está centrada no desenvolvimento e crescimento das seções nacionais. Não somos internacionalistas porque somos, mas porque acreditamos que é uma ferramenta útil e necessária para a implantação e crescimento de anarcossindicatos e sindicatos revolucionários a nível global. A atividade da CIT deve sempre partir das necessidades das seções locais e ser feita de forma a reforçá-las. Na medida em que a Internacional seja capaz de responder a essas necessidades, a CIT terá sentido, mais que o número de seções que a compõem ou os países em que está presente. As perspectivas de colaboração que se abrem vão muito além da habitual paralização de solidariedade ou do intercâmbio de comunicações. Estas também são, sem dúvida, ferramentas válidas às quais não renunciamos. Mas as seções também podem compartilhar recursos, conhecimentos, desenvolver projetos conjuntos, coordenar campanhas transfronteiriças, criar grupos de análise jurídica comparativa, etc. Por enquanto, tem havido cooperação em termos de formação, aconselhamento, intercâmbio, divulgação de conteúdos, apoio a campanhas específicas, em conflitos específicos, etc. Na CIT pretendemos explorar todas as possibilidades que podemos imaginar de solidariedade internacional, e muitas mais que podemos imaginar no futuro. Isto pode ser visto no nosso website (www.icl-cit.org) onde recolhemos notícias de eventos, campanhas ou contribuições de organizações de diferentes partes do mundo, com as quais estamos em contato ou cooperamos.

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